October 15th, 2006 (01:19 am)
current mood: cheerful
♫: Sonic Youth - "Pattern Recognition"
Não, não sou eu!=D Vou explicar:
Um dos meus livros favoritos se chama "Reconhecimento de Padrões", é do escritor canadense William Gibson (o pai do estilo de ficção científica chamado Cyberpunk)...na verdade, é o ultimo livro dele. Foi lançado em 2003 e é o primeiro livro do Gibson que se passa nos nossos tempos...quer dizer, a história se passam em 2002...por isso é até anterior aos nossos dias!X) E isso aconteceu porque...depois da internet o mundo nunca mais foi o mesmo, e os escritores de cyberpunk então...
"Reconhecimento de Padrões" mostra o nosso presente de uma forma que parece ser a primeira vez que estamos conhecendo tudo aquilo. É como se o Gibson, que dizia antes "No Future" embalado pelos punks ingleses, falasse "The Future is Now!" Por isso dizem que o livro é completamente "cyber", mas de "punk" não tem nada! O tempo passa...e os bons escritores precisam se renovar, afinal, falar da mesma coisa sempre é muito tosco.Enquanto "Neuromancer" provocava estranhamento por conta da fetichização da tecnologia, "Reconhecimento de Padrões" trata da questão das marcas.
A personagem principal se chama Cayce Pollard (não por acaso seu nome se pronuncia Case, igual ao protagonista de Neuromancer) e ela é uma "coolhunter", ou seja, uma caçadora de tendências (procura coisas interessantes no mundo para passar para a industria e lançar como tendência). Além disso ela tem uma sensibilidade extrema para logotipos e sabe, por intuição, quando certo logo vai ou não fazer sucesso no mercado...como um "efeito colateral" a sua habilidade, ela tem uma estranha fobia certos logotipos de marcas...como o boneco da Michelin. Seus pais a levaram na Disney quando era criança e a coitada ficou o tempo todo tentando manter as orelhas do Mickey Mouse fora do seu campo de visão!XPPP
Mas ela não é só uma coolhunter, nas horas vagas ela entra em fóruns na internet de fãs do Filme, que são videos lançados na rede sem que ninguém saiba quem é o autor ou que realmente são. Ela é realmente fanatica por isso...na verdade ela diz que uma amiga sempre disse: "Cayce não tem hobbies, tem obcessões!"
A vida da Cayce da uma virada quando seu hobby e seu trabalho se juntam. Um empresário a contrata para descobrir quem é o "Kubrick de Garagem" que faz o tal Filme.Para Cayce o que importa é responder as seguintes perguntas: quem está fazendo este filme? E com que propósito os segmentos estão sendo jogados na Rede? É um trabalho colaborativo ou individual?
Sua motivação é uma curiosidade implacável e nada mais.
Acho que "Reconhecimentos de Padrões" é livro mais diferente dele. Mas ainda é, como os outros, um olhar crítico na nossa sociedade.
O que pode ser mais ironico que uma publicitária com alergia a marcas? Ainda num tempo como o nosso. Se em 1984 (esse ano...), o ano em o Drummmond escreveu o a poesia que está lá no fim do post, já era desse jeito...imagina hoje...
Gostei disto que vi escrito numa crítica do livro:
"Na verdade, diria Gibson, “Cayce Pollard c’est moi”. A diferença entre criador e criatura é que Cayce está perdida no tempo e no espaço, e Gibson sabe muito bem o que faz. Pois não é de hoje que ele sai por aí como “coolhunting”.Gibson é caçador do que é “cool” desde os tempos dos contos de “Burning Chrome”, alguns deles datando de 1977 (!) Nenhum outro autor de ficção científica interferiu tão diretamente na criação de estilos e tendências no mundo inteiro."
E na mesma matéria:
"Gibson não reescreve todas as regras da literatura de ficção científica em “Pattern Recognition”, como alardeia a contracapa do livro, nem parece ser essa a sua intenção. O que Gibson faz aqui é reescrever novamente suas próprias regras como escritor."
Enfim...Gibson é aquela coisa: SEMPRE FODA. Mal posso esperar pelo próximo livro dele...dizem que será lançado ano que vem. Vou esperar para ver se vai ser algo completamentem diferente ou se vai ser uma "segunda parte" da história da Cayce (ou ligada de alguma forma) pois ele costuma lançar trilogias. Neuromancer e Idoru, outros dois livros dele que foram lançados aqui no Brasil, fazem parte de duas trilogias diferentes, mas os outros livros não foram lançados...lindo isso, né?
Vou terminar com uma frase muito foda do livro:
“Não temos futuro porque nosso presente é volátil demais. Temos apenas gestão de riscos. O desenrolar das probabilidades provocadas por um determinado momento. Reconhecimento de padrões.”
Beijos. Obrigada pela visita!^____^
Ah, uma poesia que eu amo do Drummond e que combina muito com o livro:
Eu, Etiqueta (Carlos Drummond de Andrade, 1984)
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares, festas, praias, piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa.
Sou gravado de forma universal,
Seio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.